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Como a IA e novas tecnologias impactam a mobilidade
Terceira edição do evento teve como tema principal “As novas tecnologias que estão transformando os carros, a indústria, a mobilidade…

Terceira edição do evento teve como tema principal “As novas tecnologias que estão transformando os carros, a indústria, a mobilidade e todo o ecossistema automotivo brasileiro”
Ícaro Cerqueira/RN Imagem
O Summit Futuro da Mobilidade 2026, parceria de Autoesporte com o Valor, foi realizado nesta terça-feira (29), na Casa Traffô, em São Paulo (SP). O tema da terceira edição foi “As novas tecnologias que estão transformando os carros, a indústria, a mobilidade e todo o ecossistema automotivo brasileiro”.
Na edição 2026, o Summit Futuro da Mobilidade teve cinco painéis sobre diferentes aspectos da transformação tecnológica no setor automotivo. A programação abordou como a disrupção digital e a inteligência artificial estão mudando as demandas do consumidor. Também debateu a preparação da cadeia de fornecedores brasileira para uma nova geração de carros eletrificados, inteligentes e conectados, além de soluções de conectividade para veículos mais inteligentes e seguros, e soluções de integração de diferentes modais de transportes em cidades inteligentes e rodovias conectadas.
O encerramento foi dedicado às novas tecnologias e seus impactos na produção, no desenvolvimento, na qualidade e no mercado automotivo brasileiro.
O painel de abertura, com o tema “Como as transformações digitais estão remodelando as demandas do consumidor”, teve como convidada Tânia Cosentino, conselheira de empresas, membro do conselho da WEG e ex-presidente da Microsoft no Brasil. A mediação foi do editor-chefe de Autoesporte, André Paixão.
A transformação digital mudou não só a forma como as pessoas compram, mas também o que elas esperam das marcas. Com acesso instantâneo a informações, serviços e diferentes opções de consumo, o cliente passou a valorizar experiências mais rápidas, personalizadas e conectadas, obrigando as empresas a repensarem produtos, serviços e estratégias para acompanhar as novas demandas.
“É um momento em que temos que forçar o país a mudar para ser um grande produtor de veículos elétricos, híbridos e de novas tecnologias. É incentivar as novas energias e, para isso, temos que olhar a IA e a indústria como uma coisa só. É uma questão de sobrevivência de mercado. E o Brasil precisa fomentar isso”, afirmou a especialista em IA.
Cosentino ainda ressaltou os impactos da IA no mercado de trabalho. “Cerca de 300 milhões de pessoas ficariam desempregadas. Hoje, temos estudos que estimam que, em um intervalo de cinco anos, 90 milhões de empregos serão perdidos, mas 170 milhões de novas oportunidades serão criadas. O que vai faltar são pessoas capacitadas, então precisamos investir nessa capacitação”, finalizou.
Na sequência o primeiro painel discutiu “Como a cadeia de fornecedores brasileira se prepara para os novos carros eletrificados, inteligentes e conectados”.
A presença cada vez maior de carros elétricos e híbridos, além de modelos mais inteligentes e conectados, está mudando também os bastidores da indústria automotiva nacional. Para acompanhar essa transformação, a cadeia de fornecedores brasileira precisa se adaptar a novas tecnologias, componentes e processos, ao mesmo tempo em que busca ampliar a capacidade de desenvolver e produzir localmente soluções que antes não faziam parte do seu portfólio.
O painel reuniu Ricardo Bastos, presidente da Associação Brasileira de Veículos Elétricos (ABVE); Vinicius Alvarenga, CEO da Companhia Brasileira de Lítio (CBL); José Eduardo Luzzi, diretor do Segmento de Veículos Comerciais da Associação Brasileira da Indústria de Autopeças (Abipeças/Sindipeças); e Valter Luiz Knihs, diretor de Engenharia e Comercial de e-Mobility e Baterias da WEG. A mediação foi do repórter de Autoesporte Caio Bednarski.
“Não só o lítio, mas todos os minérios são abundantes no Brasil. Temos recursos para suprir todas as necessidades que o país venha a ter na produção de veículos [eletrificados]. O crescimento do mercado interno é fundamental para o desenvolvimento [da produção local de baterias]. É um debate que diversos países estão tendo. Comparando com a China, todos os países estão atrasados quando falamos na cadeia de produção [de baterias], e isso pode ser uma oportunidade para o Brasil se começarmos a agir já”, ressaltou Vinicius Alvarenga, CEO da CBL.
Segundo Knihs, da WEG, a era da eletromobilidade será um “rolo compressor” no setor. “Nessa jornada para termos IAs poderosas, precisamos de semicondutores e, consequentemente, energia elétrica. Estamos trabalhando duro para fornecer esses recursos que não são usados apenas para veículos, mas para ‘data centers’. Sobre bateria, a primeira célula foi desenvolvida pela WEG. Essa nova era pede novos metais. Por sorte, o Brasil e a América do Sul estão cheias [de minérios raros]. A WEG já produz [localmente] baterias específicas para ônibus e caminhões”, disse.
Luzzi, da Abipeças e do Sindipeças, trouxe o olhar do setor de autopeças brasileiro, um dos mais impactados pela chegada de novas tecnologias. “O setor de autopeças no Brasil tem cerca de 80 anos e começou antes mesmo da produção de veículos. Já passamos por diversas ondas e, em todas essas eras, o mercado de autopeças foi capaz de atender às necessidades. Com os carros chineses, não será diferente. A vinda de novas tecnologias é positiva para o mercado. O Sindipeças trabalha para que possamos não somente receber essas tecnologias, mas também produzi-las aqui”, reforçou.
“Nós olhamos para o que vem do mercado chinês a todo momento, inclusive em conjunto com o Sindipeças. É importante destacar que o desenvolvimento não é para daqui a pouco, mas, sim, para agora. Temos que dominar a capacitação e fazer parcerias. É muito difícil fazer com que os chineses vejam com bons olhos [o desenvolvimento da produção no Brasil] sem parceiros”, comentou Bastos, da ABVE, sobre o desenvolvimento do parque fornecedor brasileiro para ser capaz de produzir veículos com componentes de mais alta complexidade tecnológica.
O que vai faltar são pessoas capacitadas, então precisamos investir nessa capacitação”
De acordo com Bastos, “é muito difícil uma empresa vir e se instalar sozinha no Brasil. Nosso país é complexo e se nem nós, brasileiros, entendemos tudo, imagine um chinês. Por isso, eles vão precisar, sim, de parceiros locais”. A visão de cooperação foi reforçada por Luzzi, do Sindipeças. “O fabricante chinês já chega ao Brasil com estrutura existente, com fornecedor, parque fabril e conhecimento do mercado e das regras brasileiras. Isso encurta o tempo para trazer essa tecnologia e produzir no país, com a vantagem de fortalecer a engenharia local”, resumiu.
Fechando o ecossistema de componentes e energia, Knihs desmistificou o debate sobre a transição definitiva para os veículos elétricos ao garantir que “o motor a combustão não vai acabar. Pelo contrário, vai unir-se ao motor elétrico. Todos os veículos vão ser, no mínimo, híbridos, porque a eficiência e a performance melhoram muito”, revelando que “há um bom número de marcas internacionais a conversar e preocupadas com a localização de componentes dentro do Brasil. A nossa agenda tem sido frequentemente colaborativa com os grandes fabricantes”, disse.
“Conectividade em alta: as soluções em desenvolvimento para deixar o carro mais inteligente e seguro” foi o tema do segundo painel. A conectividade deixou de ser um diferencial e passou a ocupar papel central no desenvolvimento dos novos carros. Com a evolução de softwares, sistemas de assistência e serviços conectados, as fabricantes buscam criar veículos capazes de oferecer mais segurança, praticidade e personalização, além de ampliar a interação entre motorista, carro e ambiente ao redor.
O painel teve a participação de Luciano Driemeier, gerente global de Negócios Conectados da Ford; Márcio Filho, diretor de Suporte ao Consumidor do BMW Group Brasil; e Durval Pinheiro Junior, diretor de Automobilística do Senai-SP. A mediação foi da repórter de Autoesporte Jady Peroni.
Driemeier destacou que a conectividade dos veículos vai muito além do simples espelhamento do celular na tela. Segundo ele, trata-se de uma conexão cada vez maior entre o carro e a nuvem, que permitirá ao veículo evoluir ao longo do tempo. “Nossos carros, por exemplo, já receberam mais de 1 milhão de atualizações. Com isso, não só a relação das montadoras com o veículo muda, mas a dos consumidores também”, afirmou.
Driemeier explicou que, cada vez que um carro da Ford é desligado, novas informações são enviadas para a nuvem. Com esses dados, o veículo consegue identificar comportamentos ou situações fora do padrão e antecipar possíveis problemas. “[Com isso], mudamos de um padrão de qualidade reativo para um padrão preditivo. A IA analisa volume gigante de dados na nuvem para antecipar falhas antes que elas virem um problema para o consumidor”, previu.
Ainda de acordo com o executivo, “a conectividade permite ter flexibilidade. Via atualização Over-the-Air [OtA], conseguimos reconfigurar funções do veículo com base no uso real do cliente, ajustando a experiência entre o físico e o digital”.
Pinheiro, do Senai-SP, destacou que a conectividade pode colocar o Brasil em posição de protagonismo na mobilidade do futuro. Segundo o especialista, o carro tende a se transformar em equipamento de mobilidade capaz de conectar diferentes serviços e oferecer soluções personalizadas para cada público.
Para acompanhar essa evolução, a formação de novos profissionais do setor automotivo terá de levar em consideração este cenário dos carros hiperconectados. Para Pinheiro, aos futuros profissionais do setor não bastará conhecer a parte física do veículo, mas também os softwares. Essa mudança deve transformar a atuação dos mecânicos, que precisarão ser profissionais mais multifuncionais, assim como os engenheiros.
“O mecânico do futuro não vai apenas trocar uma peça física: ele vai ter que entender de peças, eletrônica e software. Não é apenas um desafio, é uma grande oportunidade. A programação de inteligência artificial, de software e o desenvolvimento de eletrônica são uma grande oportunidade para a engenharia brasileira tomar o protagonismo na mobilidade do futuro”, seguiu.
O especialista também destaca que a maior padronização das tecnologias tornou mais viável levar recursos de conectividade para veículos de diferentes segmentos. “Um tempo atrás era difícil equilibrar custos de desenvolvimento para carros mais acessíveis, por isso colocávamos essa conectividade em carros mais caros. Hoje, conseguimos maior padronização da multifuncionalidade”, salientou.
Márcio Filho, da BMW Brasil, ressaltou que a evolução da conectividade nos últimos 12 anos foi significativa, especialmente pelo aumento do volume de dados utilizados em benefício do cliente. Segundo ele, o uso dessas informações permite antecipar diagnósticos de problemas e melhorar a eficiência das soluções.
“Quando falamos em conectividade, pensamos em comodidade, diminuindo até a dependência dos nossos celulares”, afirmou. Segundo o executivo, a conectividade avançada também traz impactos na segurança e permite atuação preventiva do veículo ou, em caso de acidente, ajuda a identificar rapidamente o que aconteceu e até a acionar autoridades e serviços de emergência de modo automático.
O terceiro painel foi dedicado a discutir o tema “Cidades inteligentes e rodovias conectadas: como ter uma mobilidade mais integrada?”. A evolução da mobilidade não depende apenas de carros mais tecnológicos, mas de cidades e rodovias capazes de se comunicar com esses veículos. A integração entre infraestrutura, transporte, conectividade e dados pode transformar a forma como as pessoas se deslocam, tornando os trajetos mais eficientes, seguros e conectados.
IA analisa volume gigante de dados para antecipar falhas antes de virar problema”
O painel reuniu Gabriel Porto, vice-presidente de Marketing e Produtos do Sem Parar; Gilmar Pereira Miranda, secretário executivo municipal de Mobilidade e Trânsito de São Paulo; Marcello Schneider, diretor de Veículos Comerciais e Solar da BYD no Brasil; e Rodrigo Zambon, CEO do Pedágio Digital. A mediação foi de Cauê Lira, editor-assistente de Autoesporte.
A eletrificação do transporte coletivo, a automação e a digitalização dos serviços estão mudando a mobilidade urbana. Para Schneider, os ônibus elétricos representam uma transformação que tende a ser permanente. “A BYD produz ônibus elétricos desde 2015. Com eles, os motoristas têm mais conforto e não precisam trocar de marcha. Acredito que é uma via sem volta. No Rio de Janeiro, em 2027, 175 ônibus elétricos já serão implementados para testes”, afirmou.
Em São Paulo, a eletrificação também avança. Segundo o secretário municipal executivo de Mobilidade e Trânsito, a cidade já é o segundo maior hub de ônibus elétricos da América Latina. Miranda também sinalizou para um maior uso de inteligência artificial na gestão urbana, mas apontou os desafios para a adoção de veículos autônomos diante da complexidade da malha viária paulistana.
“O planejamento urbano de São Paulo busca a integração de modais: do ônibus tradicional à mobilidade ativa com ciclovias, promovendo convivência mais inteligente e segura no espaço público. A tecnologia e a IA no trânsito nos ajudam a identificar condutas de risco e agir na prevenção de sinistros, tornando a cidade mais segura e sustentável para todos. O nosso grande desafio no planejamento urbano é a infraestrutura de recarga para a frota de ônibus elétricos. Estamos trabalhando junto às distribuidoras de energia e fabricantes para garantir essa transição rápida”, contou.
Na área de serviços, Porto aponta a integração digital como tendência. Pagamentos, seguros, pedágios e carregamento de veículos elétricos podem ser reunidos em uma mesma jornada digital. “Hoje, já conseguimos trazer uma comodidade muito maior para o condutor, trazendo uma mudança do modelo tradicional de pagamento [de pedágios], além de manter todos as soluções para pagamentos de contas, dívidas através de um único aplicativo”.
Para Zambon, o desafio do “free flow” é acompanhar a velocidade da evolução tecnológica com a adaptação dos usuários. “O pedágio digital vem para ser uma solução na sua jornada de mobilidade”, afirmou. Segundo ele, a digitalização também abre espaço para novas soluções a partir dos dados gerados pelos sistemas.
“As novas tecnologias que vão ajudar a melhorar a produtividade, o desenvolvimento a qualidade e o mercado de veículos brasileiros” foi o tema do quarto painel. As novas tecnologias estão transformando a mobilidade e prometem melhorar a produtividade, o desenvolvimento e a qualidade dos veículos brasileiros. Da eletrificação à inteligência artificial, passando pela digitalização de serviços e pelo uso de dados, essas soluções começam a mudar a forma como carros, ônibus e caminhões são produzidos, utilizados e integrados às cidades.
O debate reuniu Diego Fernandes, COO da GWM; Gustavo Schmidt, CCO da GAC Brasil; Marcus Vinicius Aguiar, primeiro vice-presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) e presidente da AEA; e Mauro Correia, CEO da HPE Brasil, representante de Mitsubishi e Suzuki. A mediação foi de Marli Olmos, repórter especial do Valor.
A indústria automotiva brasileira ainda enfrenta desafios para acompanhar o ritmo tecnológico das marcas asiáticas, mas os executivos destacam que há espaço para adaptação e desenvolvimento local. Fernandes enfatizou que a transformação precisa envolver toda a cadeia.
“É difícil dizer que estamos preparados, as marcas asiáticas têm um parque de produção muito mais moderno. Ainda assim, acredito que toda a cadeia precisa aplicar mais tecnologia. Tivemos dificuldade de encontrar fornecedores com tecnologias que se aplicassem aos nossos produtos. Estamos em um caminho, mas o esforço não pode ser apenas da montadora, deve ser conjunto”, reforçou.
Schmidt vê no mercado brasileiro condições para essa evolução. “O Brasil tem um mercado que dá condições para desenvolvimento. Tenho certeza que a indústria vai se organizar para trazer o que tem de bom vindo da Ásia e adaptar ao mercado brasileiro.” Segundo o executivo, a capacidade produtiva disponível pode favorecer esse movimento.
Para Aguiar, a indústria terá de avançar em áreas como biocombustíveis, conectividade e digitalização. “Para competir com a China, teremos que investir em biocombustíveis, na própria conectividade e digitalização. As montadoras estão correndo o mais rápido possível para se adaptar ao que está acontecendo. A Indústria 4.0 já é uma realidade brasileira.” Para ele, porém, o desenvolvimento de fornecedores é um dos principais gargalos.
Correia destaca a força da cadeia nacional e a troca de tecnologias entre empresas brasileiras e estrangeiras. “Acho que a indústria brasileira tem uma base de suprimentos muito forte. Somos flexíveis e sabemos como nos acomodar. Não estamos 100% preparados [para a produção local de novas tecnologias], mas ela sempre vem. O desenvolvimento surge junto à demanda da população.” Segundo Correia, essa troca também ocorre quando montadoras estrangeiras buscam tecnologias brasileiras, como os motores flex.
O Summit Futuro da Mobilidade 2026 teve patrocínio de BYD, GAC e Ford.
Fonte: Valor Empresas
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